21.6.09

Fear and Loathing in Rio (Parte 2 e final)


Rio de Janeiro: da Av. Atlântica ao Santos Dumont em 7 minutos

[ego]

(continuando...)

Como eu falava em português com o dono do quiosque - que, sem entender muita coisa, ficou plantado a uma distância segura, para averiguar qual era a bandalheira da vez - o gringo começou a gritar "Que porra você está falando? Eu não entendo sua língua de merda, nigger*". Ok. Aqui a idéia de enfiar a mão na cara dele realmente passou a fazer parte dos meus planos para o encerramento da curta estadia no Rio. "SAI FORA", eu lati, quando o empurrei. Ele cambaleou pra trás, mas não caiu. E me empurrou de volta. "E devolve o meu isqueiro, porra", eu exigi, enquanto me endireitava. Estávamos prestes a nos engalfinhar em algum tipo de batalha absurda de rancor entre colonizado e colonizador. De uma forma bizarra, meu isqueiro - que o gringo exibia como um pequeno troféu - tinha se tornado o protocolo de Kyoto, o FMI, as duas guerras do Iraque, o turismo sexual e um pouco mais.

*nigger=crioulo. Palavra extremamente ofensiva e de cunho racista, praticamente banida do vocabulário estadunidense comum depois dos famosos levantes pelos direitos humanos e pela igualdade entre as diferentes etnias. No entanto, ainda é muito utilizada - de forma amistosa - entre alguns grupos de afro-americanos. Costuma também ser empregada por racistas retrógrados para designar quase qualquer pessoa que não seja "branca".

Antes que o pior acontecesse, o gringo disse "Ok, vou chamar meu amigo ali, que vai confirmar se você é o cara que me roubou os 40 paus, enquanto isso seu isqueiro fica comigo", e foi se afastando, para trás de um outro quiosque. Tive pouco tempo pra planejar o que eu faria a seguir. Eu queria rachar a cabeça do maldito, mas pensei que seria pouco recomendável aparecer no trabalho no dia seguinte com um olho roxo, o supercílio rasgado ou qualquer coisa assim - seria difícil explicar que em pouco menos de 12 horas no Rio eu tinha conseguido me arrebentar em uma treta com um estrangeiro ignorante que passava férias no Brasil. O dono do quisque finalmente chegou perto de mim, e perguntou o que estava acontecendo. Em meio à nuvem vermelha e negra de raiva que embaçava a minha visão, consegui, de algum jeito fazer um breve resumo do acontecido. "Ah, mas nós vamos pegar esse gringo de pau!", o quiosqueiro bufou! Pude ver que não era blefe quando ele buscou uma ripa atrás do balcão. "Do jeito que eu adooooro, americano", ele ironizou, enquanto brandia o pedaço de madeira.

Eu havia pego minha mochila e a enorme mala vazia que me acompanhavam e as colocado em segurança, perto da entrada do quiosque. "Fica tranquilo, meu irmão. Deixa suas coisas aí, sossegado, que nós vamos arrebentar esse cara! Você tava aí na sua e o cara vem mexer contigo? Vamos quebrar ele no pau", ele continuou. Um casal que namorava tranquilamente em uma das mesas de plástico já havia se levantado e agora estava parado - os dois aterrorizados - no fio de calçada que separava a ciclovia instalada na orla da avenida, onde o trânsito começava a morrer. Antes disposto a arrancar os dedos do gringo com os dentes, eu começava a ficar preocupado - principalmente por conta do tacape na mão do dono do quiosque - conforme manchetes fictícias de grandes jornais cariocas se instalavam na minha cabeça. "Jornalista e vendedor assassinam turista americano em Copacabana", "Sangue na orla - briga por dinheiro de prostituição leva turista estrangeiro à morte no Rio de Janeiro" e assim por diante. "Preciso me acalmar", pensei.

E então o gringo voltou, acompanhado de seu amigo, que segurava uma lata de cerveja e também trajava apenas bermudas e camiseta. Tinha os cabelos ruivos algo compridos, e cara de turista "Rio de Janeiro-samba-carnaval-mulata". "E então? Não é esse o cara?"
, perguntou o gringo nº 1. Eu comecei a andar na direção deles, disposto a recuperar meu isqueiro e ir embora, antes que alguém chamasse a polícia. "Não, cara, não parece ser ele", o amigo respondeu. Perplexo, o gringo ficou olhando pra mim, sem saber o que dizer. Meus olhos deviam estar em brasa quando aproveitei a brecha e tomei meu isqueiro da sua mão, estendi um colossal dedo do meio em sua cara e saí andando de volta pro quiosque, para confabular com o vendedor. Meu mais novo inimigo pensou por alguns segundos e veio me estender a mão. "I'm sorry, man. I'm sorry", ele disse cabisbaixo. Hoje, de volta à selva de pedra, confortavelmente instalado em minha cadeira em frente ao computador, eu penso que, talvez, aceitar as desculpas do gringo fosse a coisa certa a se fazer. Mas não o fiz.

Não sei ao certo como comecei a frase seguinte, mas tenho sérias suspeitas de que foi com "FUCK". Colei meu rosto ao do americano/inglês e bradei um sem-número de palavrões, todos evidentemente acompanhados de dezenas de perdigotos - brasileiros, com orgulho. Primeiro ele ficou surpreso, e depois quis bancar o macho mais uma vez, no que foi exemplarmente enxotado pelo quiosqueiro, que quase o levou ao chão, com um empurrão. Por sorte o pedaço de pau jazia, tranquilo, ao chão da orla. Foi tragicômico ver o vendedor - "paraíba" como ele mesmo se definiu depois - correndo atrás do gringo por alguns metros gritando "Son of a bitch! Son of a bitch!". Quando a celeuma finalmente pareceu resolvida - o quiosqueiro ainda apertaria minha mão efusivamente e reafirmaria seu ódio por americanos por mais alguns instantes - eu e meu isqueiro rumamos para a Atlântica pegar um táxi.

Como uma bala

À vista do primeiro carro amarelo rolando pelo asfalto, estendi o dedo, e fui prontamente atendido. Não me lembro do modelo do veículo, mas acho que era um Gol. Entrei no táxi, e o motorista fumava nervosamente um cigarro de cheiro adocicado - cravo, talvez? "E aí, companheiro? Se importa se eu terminar esse aqui?", ele perguntou. "Não, claro que não. Fica tranquilo. Vamos pro Santos Dumont, por favor", eu respondi. "Acredito que você não vá se incomodar se eu também fumar, não é?", eu segui, acendendo um cigarro, ainda emputecido pelo épico que se desenrolara em Copacabana. Ah, se eu soubesse o que ainda estava pra me acontecer...

"Meu, eu queria saber o que você faria se estivesse no meu lugar...", o taxista disparou. "Manda...", eu disse - irresponsável como de costume. "Cara, seguinte. Esse carro aqui é de frota, saca? De empresa. Aí a minha mulher ficou me enchendo o saco pra arrumar um trampo pro marido da prima dela. O cara é um folgado, nunca trabalhou a sério, largou a mulher quando ela teve o primeiro filho e depois voltou, não faz nada direito. Um merda do caralho. Aí ficaram os dois, a minha mulher e o cara me enchendo o saco pra arrumar um trabalho pra ele. Eu não queria, sabe? Pô, eu sei que o cara não presta! Mas, tudo bem, fui lá e indiquei ele pra empresa. O que o filhadaputa me faz? Arruma uma dívida de 800 reais com a empresa! Ficou 4 dias com o carro, sem circular, sem pegar passageiro, sem fazer dinheiro e a diária* correndo! E agora o desgraçado diz que não tem grana pra pagar! A dívida vai vir pra mim, que indiquei ele! Agora me fala, o que eu faço com um filhadaputa desse? Me dá tua opinião, brother". "Putz", pensei. "Mais um doido. Mais um".

*diária=taxa paga pelos taxistas para a empresa dona dos carros, contada por dia em que o veículo fica com o motorista.

Enquanto eu pensava em como a minha viagem tinha oficialmente se transformado num filme do David Lynch, o taxista acelerava cada vez mais, dançando perigosamente pelas faixas da avenida. E ele queria a minha opinião. "Diz aí, brother! O que eu faço com um cara desse? Eu desencano? Eu pago a dívida e espero ele arrumar dinheiro pra me pagar? Eu meto a mão na cara dele? O que eu faço? Eu tô indo encontrar ele na garagem da empresa daqui a pouco. Depois que te largar no aeroporto eu tô correndo pra lá pra conseguir pegar ele. O que eu faço com esse filhadaputa, cara?", ele batia as mãos no volante e falava com um sotaque carioca extremamente malaco. Estávamos a uns 120 km/h, e eu finalmente perguntei "Mas ele é seu parente ou o quê?". "Que nada, brother! Ele não tem meu SANGUE, cara! Ele é marido da prima da minha mulher. Um vagabundo do caralho", ele gritou. "Ah, então dá uma 'coça' nele, ué!?", eu disse, já sem muita paciência e consideração pelo estado físico futuro do tal vagabundo.

"É isso aí! Vou enfiar a mão na cara dele lá na garagem, na frente de todo mundo! E toda vez que eu encontrar esse cara eu vou pegar ele, onde ele estiver! Filhadaputa". Ele parecia, enfim, ter encontrado a reposta que queria, acelerava cada vez mais, praguejava e buscava o celular no bolso. Tive medo de que ele desistisse de me levar pro aeroporto, pra não perder a oportunidade de brigar com o "filhadaputa" que o tinha "queimado na empresa". Primeiro, ligou pra um colega de trabalho que, acho, tentou dissuadí-lo de seus planos agressivos. "Não, mermão, segura ele aí até eu chegar, que eu vou quebrar ele", encerrou. Depois foi a vez da sua mulher. "Você viu a merda que você me arrumou, Luzia? Você viu o que esse filhadaputa me fez?". Não pude deixar de imaginar a mulher, sozinha em casa, chorando ao telefone, temendo pelo final trágico da história. Eu temia pela minha vida, a cada ligação e pisada no acelerador.

Por fim, foi a vez da mulher do dito cujo que arrumou a dívida. "Cadê esse filhadaputa, Cristina? (...) O quê? (...) Ele não aparece em casa desde ontem? (...) Ele tá cheirando, Cristina! Abre o olho! Esse vagabundo não presta! Ficou quatro dias com o carro em casa, coçando o saco! Me arrumou 800 contos pra pagar! (...) Eu vou pegar ele onde ele estiver, Cristina! Ouve o que eu tô falando! Pode ser na frente da filha dele, onde for! E se eu vir ele na rua passo com o carro por cima dele, porra".

Quando ele desligou o telefone pela última vez, nós já estávamos estacionando no aeroporto. Contei, por alto, uns sete minutos do ponto inicial ao final, o que achei muito pouco. O taxímetro marcava R$ 18,40. "Você faz uma notinha pra mim, por favor?", eu pedi, com o coração disparado. "Claro, mermão. Você quer que eu faça de quanto?", ele perguntou. Engoli seco. "Te dou vinte e tá certo, pode ser?". Saí do carro, não sem antes dizer um tímido "Vai com calma, ok?". Peguei minha bagagem no porta-malas e ainda consegui ouvir o celular do taxista tocando antes que ele disparasse, cantando pneus, em direção ao seu destino.

Pouco depois, sentado no saguão de embarque do Santos Dumont, não consegui deixar de pensar em quais seriam as manchetes dos principais jornais cariocas do dia seguinte...

8 comentários:

Gabiroba disse...

Ahhh, como eu adoro o Rio de Janeiro! Em que outro lugar se pode arranjar tanta confusão em tão pouco tempo?
E foi bom aguardar a segunda parte da história: você é muito bom nisso, Bruno! Está cativando seus leitores tal como Sahrazad!

Bruno Guerra disse...

Heheh! Espero ter fôlego para contar histórias por mil e uma noites, também! Obrigado, Gabi! Hora dessas preciso te passar o relato AO VIVO!

Gabiroba disse...

Pois é! Acredito que seja ainda mais emocionante! Mas como você anda perdido pelo mundo, acredito que este dia ainda demore um tanto pra chegar, rs...
Bjs!
=^.^=

Bruno Guerra disse...

Nem tanto! Nesse fds estarei aí (cidade sem-limites; ou seria, lá?)! Por que não marcamos?

Gabiroba disse...

Olá! Não sei se estarei no domingo, mas no sábado estou aqui, à toa, a partir das 18H.
=]
Bjs!

Talita disse...

Bruno, tive que fazer uma leitura dinâmica, muito longo seu post...Enfim, já conhecia a história, mas não pude deixar de rir na parte das manchetes fictícias.

Bjs

Bruno Guerra disse...

Ainda bem (ou não) que ficaram na ficção, Talita! E peça para a Bárbara trazer minha MORFINA, por favor.

Vinícius disse...

Você conseguiu escrever um textos que poucos conseguem. Colocou a realidade numa linguagem ficcional. Posso afirmar que esse foi um dos cinco textos que eu gostaria de ter escrito. Parabéns, brother!