7.6.09

Fear and Loathing in Rio (Parte 1)


Rio de Janeiro: a cidade maravilhosa continua linda. E estranha

[ego]

O expediente oficial no Rio 40 graus já tinha terminado. Sentado em uma cadeira de plástico amarelo de um quiosque encravado em algum lugar da orla de Copa,
não havia muito o que fazer além de bebericar displicentemente enquanto esperava a hora de pegar um táxi pro Santos Dumont, e, dali, um voo de volta pra selva de pedra.

Não me lembro exatamente quanto tempo fiquei ali, mochila a tiracolo e uma enorme mala de viagem - vazia - pousada ao lado da mesa. Mesmo no escuro, as ondas do mar podem colocar qualquer um em estado de divagação galopante. A meditação pronunciada só se interrompia pelo vasto contingente de vendedores, engraxates e doidos de pedra que insistem em puxar papo, ainda mais com alguém que descaradamente não faz parte do organismo pulsante que é a faixa de areia. Confesso que fiquei tentado a comprar uma canga ornada com a imagem aérea do Rio, depois de vê-la, tremulante, por umas quinze vezes, nas mãos de diferentes vendedores.

Bem... Lá pelas tantas a malemolência do Atlântico já não seduzia tanto assim. Os termômetros batiam em 20 graus (ainda assim, temperatura indecente comparada ao frio que fazia em Campinas ou São Paulo no mesmo dia), e, apesar de o congestionamento da Avenida Atlântica não dar sinais de arrefecer, chegava a hora de ir embora. Eu estava prestes a me levantar - ou quase -, quando um sujeito louro, parrudinho e de bochechas rosadas se aproximou. Pelo andar trôpego, pude notar que ele havia bebido um tanto mais que eu. "Hey mate! Got a light?", ele disse, ostentando um cigarro apagado. "Sure...", disse eu, estendendo o isqueiro em sua direção. Eu só não imaginava que isso seria o início de um diálogo - em inglês - que poderia estar em qualquer filme já feito sobre a máfia.

Sem cerimônia, o gringo, que trajava apenas bermuda e camiseta, se sentou à mesa. Enquanto meu novo companheiro acendia o cigarro, perguntei se ele era americano. Achei que seria uma boa - e inusitada - oportunidade de treinar a língua dos saxões. Já soltando fumaça pelos cantos da boca, ele brandiu o isqueiro na minha cara, e pensou por um segundo. "Você é o filho da puta que me levou àquela merda de stripclub ontem à noite", disparou. Não pude deixar de rir - ainda não sabia que era sério. "Perdi 40 paus por causa daquela droga", ele continuou. "Mas, e aí? Se deu bem, pelo menos?", eu brinquei, inadvertidamente.

Ainda segurando meu isqueiro, o americano (que, pensando bem, também podia ser inglês, pelo sotaque) ficava cada vez mais vermelho. "Não, 'cunt*'! Perdi 40 paus naquela merda! Quero meus 40 paus de volta! Me DEVOLVE OS 40 PAUS!". Ok, nessa hora vocês devem imaginar que eu, finalmente, percebi que a coisa era for real. Enquanto eu pensava - e dizia - "WHAT THE FUCK?!", o gringo puxava minha mochila, deixando claro que, de alguma forma embriagada, acreditava estarem ali os malditos 40 paus (aliás, seriam dólares ou reais? Isso não ficou claro em momento algum).

*cunt=boceta. Normalmente utilizada como ofensa a pessoas do sexo feminino. Similar a "vadia" ou "biscate". Pode ser utilizada para ofender um homem, também. Especialmente em filmes de gangues ou em Copacabana.

"Ok! Devolve o meu isqueiro!", eu disse. "Não sei em que porra de lugar você se enfiou ontem à noite, mas eu não estou com o seu dinheiro. Nunca te vi na vida! Acabei de chegar ao Rio, e já estou indo embora! E quero o meu isqueiro de volta!". Ele não cedia, repetindo insistentemente a história da grana perdida no stripclub, e dizia "CUNT!" a cada 2 segundos, mais ou menos.

O dono do quiosque notou que havia algo estranho no ar quando ambos (eu e o gringo) levantamos e começamos a gritar um na cara do outro (mais tarde ele admitiria que no começo achou que estávamos brincando, mas ficou desconfiado quando começou a ouvir "aquele monte de 'FUCK' pra lá e "FUCK' pra cá") e se aproximou, devagar. "Ei, companheiro! Dá uma força aqui, vai!" eu gritei pro cara do quiosque, entre uma e outra saraivada de "CUNT"s cheios de perdigotos estrangeiros. A idéia de enfiar a mão na cara do americano/inglês ainda não fazia parte dos meus sonhos de consumo.

(continua...)

3 comentários:

Anônimo disse...

Sim, eu gosto muito de ler o que você escreve.

zuleide disse...

É isso aí Bruno,coloque toda sua criatividade e imaginação prá fora e vamos em frente.Bjos.Zuleide

Gabiroba disse...

Estou curiosíssima para saber o que vem pela frente! Continue, Bruno!!!