21.10.09

Manual prático do niilismo para o self-made man


Che-Mickey: a fagulha da revolta está à venda, e não custa caro

Perdoem-me os incautos, mas o sabor da noite é de niilismo, nicotina e água mineral.

E, enquanto a verborragia loquaz e cheia de dentes do empregador transborda no discurso apaixonado do empregado subserviente, a revolução armada de Che Guevara já não serve mais. Ao menos para nós, a classe média horrorizada e farta "de tanta violência", "tanta miséria", "tanta corrupção" e "tamanha exploração". Não, a fagulha da revolta tem preço. E um tanto menor que imaginávamos.

Afinal, nem mesmo nós, senhores absolutos de pequenos feudos - maravilhosos e desimportantes - podemos vencer a lógica inexorável dele: das kapital. A mudança permanece aprisionada. Pelo menos enquanto acreditarmos - como a empregada doméstica explorada durante o ano inteiro, mas que durante uma noite reina absoluta na passarela do samba (assista a Cronicamente Inviável de Sergio Bianchi) - que é possível ocupar um lugar melhor na cadeia alimentar da Era da Informação. Um lugar acima de outrém.

O conforto do status quo - meio assim, nem muito em cima, nem muito embaixo - dá tempo pra se preocupar em "ser melhor", ou evitar que as coisas ("pelo menos para mim") fiquem piores.
Torna o rebelado um conformista. O ateu, um crente. O esquerdista, um centrista. E o direitista, um afortunado. Até que a vida passe. A Nêmesis da classe média é sua desastrosa busca pelo sucesso do indivíduo - personificada pelo self-made man -, que faz o sujeito querer crescer sozinho, a qualquer preço, e se incomodar por demais com quem não acompanhe essa ascensão.

Mas não importa. Afinal, temos ar condicionado, carro do ano, TV a cabo, uma roupa bonita pra quando quisermos sair. Somos abençoados com a exploração honesta de um emprego que nos cala diante da posibilidade de perdê-lo. Tivemos oportunidades na vida, coisa que muita gente não tem. Nos é reservado o direito de enclausurar nossos ideais em livros que nunca leremos e camisetas que estampam o rosto messiânico de nossos (desconhecidos) heróis.

E, mais importante de tudo: podemos subir na vida.

4 comentários:

Marcelo Quaz disse...

Meu caro, que belo post. O mais "bonito" que já vi neste meu pouco tempo de compartilhamento de gonzolices.

Gostei muito dos links. Construção Coletiva.

Aliás, se na sua prova tivesse escrito este texto, eles ficariam mais animadinhos com o novo ingresso.

Mas sobre o texto em si, cáustico e pontiagudo:

Somos 2! Somos milhões de bits ansiosos!

E aí, o que nos resta? O que fazer? Aponte-me caminhos sólidos, compartilhe a sua ideia. Não precisa por em Power Point.

Eu vou junto...

marcelo quaz

Ana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana disse...

Aponto uma boa leitura: Por uma moral da ambiguidade, da Simone de Beauvoir. Não há nada de novo nos ensaios que compõem o livro, mas a escrita dela sempre me comove.

Yumi

Bravo disse...

Eu iniciei uma luta para ser um "derrotado" sozinho, e nem isso consegui. fui tragado, mano! vc não sabe a dor que eu sinto.